Quem participa menos — e o que fazemos com isso
Em contextos que celebram a participação, raramente se questiona o essencial: quem continua a não ser ouvido, mesmo quando há espaço para falar?
Ao longo dos anos, tenho observado algo que se repete em diferentes contextos — escolas, formações, assembleias, encontros comunitários, grupos de trabalho. Há sempre pessoas que entram rapidamente na conversa e outras que permanecem numa espécie de margem silenciosa. E não, isso nem sempre significa falta de interesse, desmotivação ou ausência de ideias. Às vezes, significa apenas que aquele espaço nunca foi verdadeiramente construído para elas.
Confundimos demasiadas vezes presença com envolvimento. A pessoa apareceu, sentou-se, ouviu, talvez até tenha acenado com a cabeça. Mas participar não é apenas estar. Estar não é, automaticamente, sentir-se legitimado para intervir.
Muitas crianças aprendem cedo que falar demasiado pode trazer consequências. Na nossa sociedade temos profissionais que já passaram por contextos onde a sua opinião era constantemente interrompida, desvalorizada ou ignorada. Existem pessoas que entram numa sala e fazem imediatamente uma leitura silenciosa: “Há lugar para mim aqui?” E essa pergunta nasce de experiências acumuladas.
É por isso que a participação desigual não pode ser analisada apenas como uma característica individual. Não podemos continuar a olhar para quem fala menos como alguém que “precisa de se soltar mais”, “ganhar confiança” ou “ser mais participativo”. Essa leitura é simplista e, muitas vezes, profundamente injusta.
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Porque a verdadeira questão é outra: o que é que o espaço está a produzir? Um espaço pode dizer que é aberto e continuar a funcionar de forma intimidatória. Pode defender diversidade e continuar a validar sempre os mesmos códigos de comunicação, os mesmos ritmos, os mesmos perfis. Até existe a fala sobre inclusão e, ainda assim, algumas pessoas permanentemente no lugar de espectadoras. Nem toda a participação acontece da mesma maneira, há quem pense antes de falar. E há quem precise de tempo para confiar ou quem participe melhor em pequenos grupos.
Também existem as pessoas que se expressam melhor através da escrita, da arte, do corpo ou da escuta atenta. Quando só reconhecemos um tipo de presença como válida — normalmente a mais rápida, verbal e segura — estamos a excluir sem dizer que estamos a excluir. Não basta convidar pessoas para “sentar à mesa”, é preciso perguntar o que acontece depois de sentarem. Porque existem instituições muito empenhadas em parecer participativas, mas pouco disponíveis para rever as dinâmicas de poder que mantêm determinadas vozes no centro e outras nas periferias.
A participação não cresce automaticamente porque colocámos cadeiras em círculo ou criámos um momento de partilha. Ela cresce quando existe segurança relacional, emocional e escuta. Quando as pessoas percebem que não serão ridicularizadas, apressadas ou corrigidas à primeira frase. Cresce quando o silêncio deixa de ser interpretado como incapacidade e passa a ser lido com mais profundidade. Na educação como um todo, isto é particularmente importante.
Conheço adultos que passaram anos inteiros sem que ninguém lhes tenha perguntado genuinamente, o que pensam. Também sei de crianças cuja participação é constantemente mediada pelo comportamento, pela linguagem, pela origem social, pela cor da pele, pela neurodivergência ou pela forma como ocupam o espaço. Algumas aprendem rapidamente que é mais seguro desaparecer do que arriscar não corresponder ao que esperam delas.
E depois, mais tarde, admiramo-nos quando chegam à adolescência ou à vida adulta sem acreditar na própria voz e com uma autoestima baixa. Está na altura de deixarmos de celebrar apenas quem participa muito e começarmos também a cuidar das condições que permitem aos outros participar sem medo.
Porque uma participação verdadeiramente consciente não se mede pelo número de pessoas presentes numa sala. Mede-se pela qualidade do espaço que foi criado para que cada uma delas exista nele com dignidade.

