Quando a expectativa define o percurso
Em algumas circunstâncias as expectativas podem parecer inofensivas, principalmente se não são ditas em voz alta ou não são ditas em forma de crítica. Às vezes chegam disfarçadas de preocupação, de conselho, de “realismo” ou até de cuidado. Mas, ainda assim, imputam e moldam caminhos. Quando esperamos pouco de alguém, esse pouco começa muitas vezes a organizar a forma como olhamos, falamos e agimos. E, sem darmos conta, aquilo que era apenas uma expectativa transforma-se num ambiente. E esse ambiente influencia comportamentos, decisões, confiança e possibilidades.
É aqui que a profecia autorrealizável ganha força.
A profecia autorrealizável acontece quando uma crença inicial, mesmo que não seja objetiva nem justa, acaba por influenciar as nossas ações de tal forma que contribui para produzir o resultado que parecia apenas prever. Em outras palavras: acreditamos que algo vai acontecer, agimos a partir dessa crença, e essa ação ajuda a tornar real aquilo em que acreditávamos.
Se acreditarmos que uma criança “não vai conseguir”, a forma como se facilita a aprendizagem altera-se. Talvez simplifique-se demasiado, retire-se autonomia, corrija-se mais do que se escuta ou espere-se menos. O problema é que ao esperar menos, oferece-se menos condições para que ela se revele para além daquilo que já se decidiu, ainda que silenciosamente, sobre ela.
E quando esse padrão se repete, deixa de ser apenas uma atitude pontual e transforma-se numa lente. E passamos a interpretar comportamentos e capacidades através dessas lentes e, muitas vezes, acabamos por delimitar futuros influenciados por elas.
O mais subtil — e talvez mais desafiante — é que estas expectativas não surgem no vazio. São moldadas por histórias, referências, experiências anteriores e, também, por imagens coletivas que carregamos sem questionar. Ideias sobre o que é “normal”, “adequado” ou “esperado” acabam por influenciar aquilo que projetamos nos outros, mesmo quando acreditamos estar a agir de forma neutra.
É neste ponto que a diversidade cultural entra de forma silenciosa, mas profundamente relevante.
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Quando alguém cresce, aprende ou se expressa a partir de referências culturais diferentes das nossas, há um risco maior de interpretarmos diferença como limitação. Não por intenção, mas por desconhecimento. Um silêncio pode ser visto como falta de iniciativa, quando pode ser sinal de respeito. Uma forma distinta de comunicar pode ser interpretada como desinteresse, quando é apenas outra maneira de participar. Uma abordagem alternativa à resolução de problemas pode parecer inadequada, quando, na verdade, revela outra lógica, outro percurso.
Se a expectativa não reconhece essa diversidade, tende a estreitar possibilidades.
E, mais uma vez, a profecia autorrealizável entra em ação: ao não reconhecer valor na diferença, ajustamos o nosso comportamento — damos menos espaço, escuta e oportunidade. E, com isso, limitamos precisamente aquilo que poderia emergir se o contexto fosse mais aberto.
As expectativas dos adultos têm um peso real nos percursos educativos das crianças. Influenciam não apenas a forma como são vistas, mas também as oportunidades que lhes são dadas para participar, comunicar e aprender. Por isso, importa reconhecer que algumas diferenças culturais, linguísticas ou relacionais continuam a ser lidas segundo referenciais dominantes, sendo, por vezes, confundidas com desinteresse, limitação ou incapacidade. Educar com amor e consciência implica precisamente esse exercício de vigilância interior: rever crenças, interpretações e expectativas, de modo a evitar leituras redutoras sobre a criança. Incluir, neste sentido, não é apenas reconhecer a diferença, mas criar contextos em que múltiplas formas de ser, comunicar e aprender possam existir com legitimidade, dignidade e uma possibilidade real de florescimento.
E no percurso criar condições para que múltiplas formas de ser, pensar e aprender possam coexistir sem serem constantemente comparadas a um único padrão. Talvez seja também isso que Geneva Gay nos ajuda a compreender: educar com justiça exige práticas capazes de reconhecer o valor da diferença e de lhe dar lugar real no processo educativo.

