Do portão à sala de aula
Setembro chegou e, com ele, regressaram os alunos, os professores, as mochilas, os horários, as reuniões e aquele movimento tão particular das primeiras semanas de aulas. Regressaram também algumas notícias que parecem acompanhar-nos há demasiado tempo: faltam professores, há milhares de horários por preencher, alunos que começam o ano sem todos os docentes. Continuamos a falar do envelhecimento da classe docente e da dificuldade em atrair novas gerações para a profissão.
Neste arranque do ano letivo, o ministro da Educação reconheceu que muitos alunos começariam sem todos os professores, sobretudo na Grande Lisboa e na Península de Setúbal. Do lado dos sindicatos, voltaram os alertas para as aposentações, a sobrecarga e a necessidade de tornar a profissão mais atrativa.
Os problemas são reais e muitos deles urgente, mas há decisões que não pertencem às escolas. Dependem sim, de políticas públicas e de uma visão para a Educação que consiga olhar para lá do próximo ano letivo.
Mas, no meio de todo este ruído, voltei a reactivar um pensamento: Enquanto esperamos pelas mudanças que dependem de outros, o que podemos transformar na escola que já temos?
E depois de uma situação que vivi recentemente, essa pergunta ganhou mais força.
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Fui oradora numa ação de sensibilização organizada por um agrupamento de escolas. A determinada altura, durante a conversa, um professor partilhou uma preocupação sobre alunos que chegam à escola, atravessam o portão, mas não entram na sala de aula.
Durante a conversa surgiu a possibilidade de levar à escola alguém que aqueles jovens reconhecessem como referência. Uma pessoa capaz de os inspirar, de lhes mostrar outros caminhos, talvez de conseguir chegar onde os adultos que diariamente estão na escola já não estavam a conseguir chegar.
Todos conseguimos provavelmente identificar alguém que, em determinado momento da nossa vida, nos disse alguma coisa, fez uma pergunta ou simplesmente olhou para nós de uma forma que nos permitiu imaginar outra possibilidade.
Mas, enquanto escutava aquele professor, surgiu-me outra pergunta.
E depois?
Quando essa pessoa sair da escola e o portão voltar a abrir na manhã seguinte, o que acontece?
Não conheço suficientemente a realidade daquele agrupamento para saber que respostas já existem. E esta reflexão não nasce de uma intenção de avaliar o trabalho de profissionais que estão diariamente no terreno, muitas vezes a gerir situações de enorme complexidade.
Nasce de uma pergunta que acredito poder servir para muitas escolas: O que acontece do portão à sala de aula?
À primeira vista, a resposta pode parecer simples, o aluno não quer entrar, por estar a desafiar uma regra, por não querer aquela aula ou por preferir ficar com os amigos. Mas também pode estar a testar os limites dos adultos ou pode estar a acontecer alguma coisa que ainda não conhecemos.
Uma escola precisa de regras, de limites e expectativas claras. Crianças e jovens precisam de aprender que existem responsabilidades e que as escolhas têm consequências. No meu ponto de vista, cuidar não é permitir tudo.
Cabe-nos tentar o melhor que conseguimos e em equipa, perceber o porquê. É provável que a cultura da escola se revele, pois cultura não é apenas aquilo que está escrito no projeto educativo, é acima de tudo, aquilo que fazemos quando o que estava previsto não acontece.
Falamos muitas vezes da autonomia das escolas associada ao currículo, aos projetos, à organização dos tempos ou às metodologias. Mas autonomia também pode significar uma comunidade sentar-se e perguntar:
Quando isto acontece na nossa escola, como queremos responder?
Não necessariamente criando mais um documento, nem mais um procedimento que acrescentará mais “peso” à gestão diária, mas construindo uma cultura suficientemente clara para que as pessoas saibam que não estão sozinhas perante os problemas.
E é aqui que encontro esperança neste início de ano letivo, porque há problemas na Educação que nenhuma escola consegue resolver sozinha. Uma direção não consegue resolver a falta nacional de professores, um professor não consegue rejuvenescer uma classe profissional. Um agrupamento não consegue, sozinho, tornar a carreira docente mais atrativa.
É importante dizê-lo, sobretudo num momento em que milhares de horários continuam por preencher e em que o próprio Governo está a introduzir novos mecanismos para tentar acelerar a colocação de professores.
Não me parece sensato, transformar problemas estruturais em responsabilidades individuais. Mas também não precisamos de ficar completamente imóveis enquanto esperamos que os problemas estruturais sejam resolvidos.
A meu ver, a pergunta de base é: O que podemos fazer diferente?
Podemos continuar a fazer da escola um lugar onde valha a pena entrar e um espaço onde podemos (e devemos) fazer as perguntas que nos impulsionam a construir uma escola melhor.
Neste início deste ano letivo, acredito que esta possa ser uma boa forma de começar.

