A pausa também educa
Há poucos dias terminou oficialmente mais um ano letivo. E, por esta altura, há uma imagem que me regressa todos os anos.
Recordo-me de quando estava em sala e, mais tarde, quando assumi funções de coordenação e liderança pedagógica. Chegava invariavelmente ao final do ano profundamente cansada. Não era apenas o cansaço físico, era a sensação de ter passado meses a cuidar, a decidir, a responder, a antecipar, a estar disponível para crianças, famílias e equipas.
Na altura, acreditava que era normal, afinal, educar era isso. Hoje, olho para essa fase de outra forma. Percebo que o problema nunca foi o compromisso com a profissão. Foi termos aprendido a cuidar de todos, sem nos perguntarmos quem cuidava de nós.
Por isso este período entre o fim de um ano letivo e o início do próximo - seja muito mais importante do que, por vezes, imaginamos, pois não é apenas um intervalo no calendário. É uma oportunidade para recuperar aquilo que o ritmo intenso do quotidiano nos foi pedindo para adiar.
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Ao longo do ano, falamos frequentemente sobre a importância de respeitar o ritmo das crianças. Defendemos que precisam de tempo para brincar, descansar, explorar e integrar aquilo que vivem. Mas raramente aplicamos esse mesmo princípio a nós.
Quem cuida de quem educa? E quem autoriza quem educa a parar?
Uma educadora não leva apenas conhecimentos para a sala - leva a sua presença e a forma como escuta.
Leva também, a maneira como responde perante um conflito, a disponibilidade para acolher uma criança num dia difícil e a capacidade de observar antes de interpretar.
Tudo isso faz parte da prática pedagógica e depende, em grande medida, do estado em que o adulto chega.
É por isso que acredito que a pausa também faz parte da profissão, não é um prémio pelo trabalho realizado. É uma condição para continuarmos a educar com qualidade.
Esta pausa não é um tempo para fazer mais, mas um tempo para recuperar partes de si que ficaram em segundo plano ao longo do ano.
Dormir sem culpa. Ler por prazer. Passear sem destino. Estar com quem lhe faz bem. Ficar em silêncio. Aborrecer-se. Rir. Voltar a sentir curiosidade. Ou simplesmente não fazer nada durante algum tempo.
Nem sempre percebemos que a qualidade da nossa presença junto das crianças começa muito antes de entrarmos na sala. Começa na forma como tratamos de nós.
As crianças não precisam de adultos perfeitos, precisam de adultos disponíveis.
Quando setembro chegar, haverá novamente desafios. Novas crianças. Novas famílias. Novos projetos. Haverá dias exigentes e outros profundamente felizes, como sempre acontece na educação.
Mas imagine chegar a esse primeiro dia não apenas com materiais preparados, mas consigo própria também um pouco mais inteira.
Porque também isso se prepara, a pausa não é tempo perdido, é tempo investido.
Que este verão lhe permita descansar sem culpa, desacelerar sem medo e recordar que cuidar de si sempre foi parte do trabalho de educar.
Porque quem educa com amor também precisa de aprender a cuidar de si com a mesma consciência.

