E se a professora também for conteúdo?
“Nunca tive uma professora mulata.”
Foi uma das primeiras coisas que ouvi no meu regresso ao chão da sala de aula. A frase veio de uma aluna do 9.º ano, de forma espontânea, quase como quem partilha uma curiosidade ou faz uma constatação que lhe ocorreu naquele instante. Não houve qualquer solenidade no momento, mas confesso que hesitei sobre o que fazer com ela. Uma parte de mim pensou que talvez devesse aproveitar a oportunidade para falar sobre a palavra “mulata”, sobre a sua origem, a sua história e tudo o que pode carregar. Podia questionar o termo, problematizá-lo ou simplesmente explicar por que razão hoje prefiro usar a palavra negra.
A pausa também educa
Há poucos dias terminou oficialmente mais um ano letivo. E, por esta altura, há uma imagem que me regressa todos os anos. Recordo-me de quando estava em sala e, mais tarde, quando assumi funções de coordenação e liderança pedagógica. Chegava invariavelmente ao final do ano profundamente cansada. Não era apenas o cansaço físico, era a sensação de ter passado meses a cuidar, a decidir, a responder, a antecipar, a estar disponível para crianças, famílias e equipas.
As crianças devolvem energia
O que aqui se torna evidente é uma distinção fundamental: o desgaste não é necessariamente produzido pela relação educativa em si, mas pelas condições sistémicas que enquadram essa relação.

