O currículo que ninguém escreve
Nem tudo o que se aprende num contexto educativo está escrito nos documentos orientadores. Há aprendizagens que acontecem todos os dias, em silêncio, nos gestos, nas rotinas, nas relações. Um currículo que não aparece nos planos, mas que molda profundamente a forma como cada criança se vê, se sente e se posiciona no mundo. É o currículo que se aprende sem estar no plano. Aprende-se quando uma criança percebe quem é escutado primeiro no grande grupo.
Quando certos comportamentos são rapidamente acolhidos e outros imediatamente corrigidos. Quando algumas crianças são constantemente convidadas a participar e outras aprendem a observar em silêncio. Quando o choro é interpretado como birra ou como pedido de relação.
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Este currículo invisível constrói-se, sobretudo, nas rotinas.
Na forma como acolhemos cada criança de manhã.
No tom de voz que usamos para pedir que se sentem.
Em quem escolhe primeiro, quem espera, quem raramente é chamado.
Na rapidez com que legitimamos umas emoções e desvalorizamos outras.
Na educação de infância, as rotinas não são neutras: são profundamente educativas. Elas ensinam pertença, segurança, hierarquia, poder e lugar no grupo — muito antes de qualquer “conteúdo”.
Constrói-se também nos exemplos repetidos.
Nas histórias que contamos.
Nas famílias que aparecem nos livros.
Nos papéis atribuídos nas brincadeiras simbólicas.
Nos modelos de adulto que apresentamos como referência.
Repetir é ensinar. Mesmo quando não é intencional.
Depois vem a normalização de comportamentos.
O que é considerado “uma criança bem comportada”.
O que é visto como “excesso de energia”.
O que é interpretado como “imaturidade”.
O que é lido como “autonomia” e o que é lido como “desafio”.
O contexto educativo não ensina apenas regras de convivência.
Ensina, silenciosamente, que corpos cabem, que emoções são aceitáveis, que formas de expressão são valorizadas.
Ensina quem deve adaptar-se ao grupo.
Quem pode explorar livremente.
Quem aprende a controlar-se para ser aceite.
Quem cresce a sentir que “é demais” ou “não chega”.
E tudo isto acontece sem estar escrito em lado nenhum.
A neurociência afetiva, nomeadamente os contributos de António Damásio, mostram-nos que emoção e cognição não são processos separados: é a partir do sentir que o cérebro constrói significado. Na prática, isto significa que o modo como uma criança é acolhida emocionalmente não é apenas contexto — é parte estrutural da sua aprendizagem.
O currículo que ninguém escreve molda a relação da criança consigo própria, com os outros e com o aprender. Constrói a sua imagem interna antes de qualquer competência formal. Define, muitas vezes, quem se sente seguro para experimentar e quem aprende cedo a retrair-se.
Por isso, quando falo de educação consciente na infância, não estou a falar apenas de ambientes preparados, materiais pedagógicos ou metodologias ativas. Estou a falar de olhar para aquilo que ensinamos sem perceber que estamos a ensinar.
Para uma educadora, a pergunta mais transformadora não é: “O que estou a planear para hoje?” Mas sim: “O que as crianças estão a aprender aqui todos os dias, mesmo quando eu não planeei?”
Porque é nesse currículo invisível — feito de gestos, olhares, tempos, silêncios e expectativas — que se joga uma parte profunda do bem-estar, da inclusão e da justiça desde a primeira infância.

