Quando a escola fala e a família não responde.

No terreno da prática educativa, há fenómenos que muitas vezes interpretamos com demasiada rapidez. Famílias que não respondem, que não participam, que permanecem em silêncio perante os convites e mensagens da escola — e, num instante, essa ausência é lida como “desinteresse”, “falta de cuidado” ou “não envolvimento”.

O risco de uma leitura precipitada é transformar uma ausência de palavras em atribuição de culpa. Mas, se olharmos com uma lente pedagógica e consciente, percebemos que o silêncio é, em si, um dado relacional: ele ocorre dentro de uma interlocução que já foi moldada por expectativas, por códigos institucionais e por experiências prévias. 

O silêncio como dado pedagógico

O silêncio não é um vácuo.
É uma resposta que emerge quando a comunicação não foi ainda um espaço de encontro, mas uma sequência de transmissões unilaterais.

Quando uma escola envia informações — reuniões, circulares, comunicados — e não recebe resposta, aquilo que está a acontecer não é apenas ausência de feedback. É uma expressão de vulnerabilidade da relação educativa. Muitas famílias não respondem porque simplesmente não se reconhecem nos códigos, no timing ou na linguagem instituídos pelos profissionais. O silêncio, então, torna-se uma forma de proteção — não necessariamente de indiferença. 

Barreiras invisíveis à participação

Muitas vezes, olhamos para o “não envolvimento” como se fosse uma escolha livre, descomprometida.

Contudo, existem barreiras que escapam ao nosso olhar:

  • Expectativas implícitas sobre o que significa “participar”;

  • Códigos de linguagem institucional que não dialogam com todos os contextos culturais e sociais;

  • Sensações de insegurança ou de não pertença;

  • Medo de julgamento ou de não saber “responder da forma certa”.

Estas barreiras não estão à superfície, mas moldam profundamente a forma como as famílias percebem os seus lugares na dinâmica escola-família. Quando a comunicação assume que todos partilham o mesmo mapa de interpretação, está a construir um ambiente onde muitos se perdem antes mesmo de tentar responder.

Ler o “não envolvimento” com olhos profissionais

Uma leitura profissional do silêncio pede algo que vai para além de meros protocolos:

  • Exige que suspendamos a tendência de julgar rapidamente;

  • Que reconheçamos a comunicação como competência, não como boa intenção;

  • Que percebamos que não responder pode ser uma forma de dizer “não sei como” ou “não me sinto à vontade para”.

O silêncio, nesse sentido, é um ponto de entrada — não um ponto de fim. Ele nos convida a questionar: Que imagem a nossa comunicação está a construir? Que espaço relacional ela abre — ou fecha? Não é, portanto, uma questão de “fazer com que as famílias participem mais”, mas de construir comunicação que reconheça e acolha as diferenças reais que existem entre nós. 

Uma mudança de foco

Quando deixamos de ver o silêncio como fracasso e o começamos a ver como parte do processo, transformamos o problema em convite. Convite para escutar com mais atenção não aquelas respostas que queremos ouvir, mas o que não está a ser dito. Convite para olhar para a comunicação como competência profissional que se desenvolve — não como boa intenção que se expressa.

A pergunta que nos serve, então, não é “Como fazemos para que todos respondam?”
Mas sim: Que relações a nossa forma de comunicar está a tornar possível?
E nessa pergunta está o verdadeiro trabalho pedagógico: transformar contextos em lugares onde todos — quem fala e quem permanece em silêncio — possam existir e aprender em conjunto.

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